Mitos urbanos criam crenças que atraem devotos

Posted on 27/09/2010 por

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Lendas Urbanas

“O pai de um amigo meu me contou (…)”. Quando nos referimos a lendas urbanas normalmente ouvimos muito essa frase. Apesar do publico jovem não acreditar nessas histórias lendárias, existem muitas pessoas devotas a esses personagens.

Mas o que são lendas urbanas? São histórias verídicas ou misteriosas que envolvem despertando a curiosidade. Elas têm um caráter fabuloso e sensacionalista e são contadas principalmente através da oralidade. Essas lendas podem ser consideradas uma espécie de folclore urbano.

Muitas das lendas urbanas são, em sua origem, baseadas em fatos reais (ou preocupações legítimas), mas geralmente acabam distorcidas ao longo do tempo. Com o advento da Internet, muitas lendas se propagaram de maneira tão intensa, que se tornaram praticamente universais, como o caso dos vampiros.

O vampirismo, que no passado era uma mera lenda urbana, se tornou um fenômeno mundial. No entanto, sofreu uma grande alteração, o que fez com que o vampiro perdesse as suas principais características. Esse novo personagem é reconhecido e idolatrado pelo público jovem, que se reconhece nessa figura misteriosa e sombria.

Apesar de vivermos em uma das maiores metrópoles do mundo, lendas urbanas estão por todas as partes e fazem parte da vida de milhares de cidadãos.  Procuramos explorar lendas que não são tão conhecidas como a do vampiro, mas que despertam e aguçam a curiosidade e a devoção de muitas pessoas.

As Histórias

Coriolando

Uma das maiores crenças da cidade de Jaú, interior do estado de São Paulo, é o velho Coriolando. Ele possuía doença mental, por isso se comportava como criança, apesar de adulto. Sempre vestido de terno e com um cavalinho de pau, Coriolando pressentia toda vez que ocorria uma morte. Chorando, ele se dirigia até o velório da cidade e lá permanecia até o corpo ser enterrado.

Segundo a moradora de Jaú, Terezinha César, 86, quando seu pai morreu, Coriolando, na época mais jovem, passou a noite com os familiares. “Ele chorava e dizia que havia perdido um grande amigo. Mas ele nunca conheceu meu pai. Apenas pressentiu o acontecimento e permaneceu conosco”, afirma.

Pelo seu “dom”, a população de Jaú acredita que ele era um santo e após sua morte, aos 77 anos, vários foram os pedidos feitos ao seu túmulo. Assim que as graças eram atendidas, os crentes o depositavam cavalinhos de pau.

Em pouco tempo, a humilde sepultura de respeitado senhor ficou pequena para tantos pedidos. Foi então que a prefeitura municipal de Jaú deu-lhe de presente um túmulo maior. Com sua quantidade de casos atendidos, Coriolando já é quase considerado um santo pela Igreja Católica.

Fotos do túmulo de Coriolando em Jaú:

foto por Gabriela Meschini

foto por Gabriela Meschini

foto por Gabriela Meschini

Maria Judith

Maria Judith de Barros possui seu túmulo com muitas flores e placas de agradecimentos pregadas pelo seus devotos. Ela viveu entre 1897 e 1938, de uma maneira simples, e morreu de uma doença degenerativa.

Como Maria Judith sofria agressões de seu marido alcoólatra, após ter morrido muitas pessoas pensaram que ela poderia fazer interseções.

O número de pessoas devotas à ela aumenta cada vez mais. Um deles, o cantos Beto Barbosa, construiu seu túmulo como forma de agradecimento por uma causa alcançada.

Fotos do Túmulo de Maria Judith no Cemitério da Consolação:

foto por Cristiane Nunes

foto por Cristiane Nunes

foto por Cristiane Nunes

foto por Cristiane Nunes

O Mistério da Família Matarazzo

De acordo com a lenda, enquanto uma das filhas do Comendador Ermelino Matarazzo estava sendo enterrada no Mausoléu da Família no Cemitério da Consolação em São Paulo, um dos coveiros morreu. Ele desmaiou e começou a sangrar até morrer. Não se sabe a causa de sua morte. Um dos atuais coveiros do cemitério afirma que tem medo de andar a noite no local, pois algumas pessoas falam que o coveiro morto ainda ronda por lá.

Entrevista com coveiro do Cemitério da Consolação:

coveiro

O Bebê Diabo

“Lembro de quando li nos jornais sobre a existência de um bebê diabólico”. Leonor Dib, uma senhora de 75 anos, fala sobre uma lenda que foi popularizada pelo jornal Notícias Populares (NP). Na década de 70 o jornal divulgou que o bebê nasceu na região do ABC com chifres, cascos e cauda causando espanto da população. Depois foi esclarecido que não se passava de uma criança que tinha uma deficiência física. Tudo foi uma estratégia de marketing para vender mais jornal.

Menino Antoninho

O menino Antoninho (Antônioda Rocha Marmo) morreu aos 12 anos, no ano de 1930 de gripe espanhola. Desde garoto queria ser padre e já costumava pregar sermões.

Por causa de sua paixão natural pela religião, muitas pessoas se tornaram devotas à ele, pedindo milagres e graças. Conforme as escrituras em seu túmulo afirmam, Antoninho já atendeu inúmeras delas.

Com seus números elevados de milagres, logo será canonizado pela Igreja Católica.

Fotos do Túmulo do Menino Antoninho no Cemitério da Consolação:

foto por Cristiane Nunes

foto por Cristiane Nunes

foto por Cristiane Nunes

Entrevista com devoto do Menino Antoninho

Entrevista com administração do Cemitério da Consolação:

A Mulher da Estrada

Na maior parte das versões, a história é de uma mulher loira que fica na beira da estrada pedindo carona para os motoristas que passam. Quando consegue, a mulher leva a pessoa até um cemitério, ao chegar lá a loira some. Em algumas versões o motorista reconhece a moça em uma foto. Já em outras, a mulher desaparece dentro do próprio automóvel e o motorista descobre com os moradores das proximidades que a mulher havia sido atropelada naquela estrada.

Na capital, algumas pessoas já ouviram a história, mas “adaptada”.  Por exemplo, Camila Dardé ouviu a história quando era criança sobre um taxista que ao receber uma jovem, ele a leva até um cemitério. Chegando lá ela dá ao motorista o endereço de sua casa para que lá ele receba o dinheiro. Quando vai receber o dinheiro, o pai da menina diz que é impossível sua filha ter andado de táxi porque ela havia morrido muitos anos atrás.

Considerações finais

Como vimos aqui, inúmeras são as histórias que rodeiam a cidade de São Paulo e seu interior.

Como o vampirismo, essas crenças são baseadas em fatos reais e são distorcidas por seus contadores ao serem passadas de gerações em gerações.

O que fica, no entanto, é a certeza da população sobre a santificação de pessoas que, em vida, não eram reconhecidas. Essa fé e confiança é o que move as histórias, fazendo-as circularem e ganharem a força que, séculos atrás, o vampiro também ganhou.

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