O Brasil Inacessível

Posted on 29/09/2010 por

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O universo da diversidade é gigantesco e a informação é fundamental para que vençamos o preconceito, a discriminação e a indiferença, ainda muito presente nos dias de hoje. As pessoas vivem com pressa, sempre correndo atrás da hora, sem tempo para nada. Isso faz com que parar para dar atenção especial a alguém com qualquer tipo de deficiência torne-se um engodo, um incômodo.

Então a política do “cuidar dessas pessoas” e “se preocupar com o assunto” é dever do Estado e suas famílias, além de acha-rem que, pelo fato de não entenderem, – não fazerem parte daquele universo, afinal – não podem ajudar. O aprendizado vindo de uma pessoa com algum tipo de deficiência é tão enriquecedor, tão instrutivo, que mudamos os parâmetros de nossas próprias vidas.

Os limites são permanentemente testados e, muitas vezes, ultrapassados e modificados. O próprio significado da palavra limite muda. Isso faz com que as nossas idéias do mundo, as nossas concepções sejam todas questionadas e postas à prova. Portanto, ratificando o que já havia dito, a informação é o remédio para o preconceito.

Há uma imensa aura de constrangimento em se falar de “pessoas com deficiência”. Há, no mínimo, um século atrás, as pessoas com deficiência eram segregadas da sociedade e levadas para colônias, asilos e clínicas especiais, que mais pareciam prisões.

Na década de 1960, as pessoas com deficiência eram chamadas por termos como “inválidas”, “defeituosas”, “incapacitadas”, “incapazes”, muito bem o que a sociedade esperava e achava delas. A partir do momento em que foi necessário se tornar politicamente correto, elas eram definidas como “pessoas excepcionais”, “com necessidades especiais”, “portadoras de deficiência” ou “portadoras de necessidades especiais”. Segundo ao texto aprovado pela Convenção Internacional para Proteção e Promoção dos Direitos e Dignidades das Pessoas com Deficiência, aprovado pela Assembléia Geral da ONU, em 2006, e ratificada no Brasil em julho de 2008, o modo mais correto de se tratar um deficiente e mais aceito por ele também é o mais simples: “pessoa com deficiência”.

E essa aura de constrangimento, unida a pressa e a ansiedade diária, cria o efeito invisível ao deficiente. Não se tem a paciência de despender um minuto a mais de atenção e perceber o mínimo além do óbvio. Uma pessoa com deficiência é tudo, menos óbvia. Pelo contrário. A riqueza de experiências que cada um desses indivíduos pode nos trazer só pode ser altamente salutar em uma época de tão pouca imaginação, para não se dizer preconceito ou ignorância voluntária (se fazer de desentendido é muito fácil).

As entrevistas que o grupo fez, os deficientes com quem conversei me abriram novos horizontes, mostrando maneiras diferentes de agir diante das mesmas adversidades, olhares incomuns para detalhes aparentemente prosaicos e sem importância, ou seja, o deficiente pode ser qualquer coisa, menos óbvio.

Portanto, não se deve apenas dar um mergulho mais fundo no universo dos deficientes (o que já seria um enorme passo), mas começar a pensar de maneira mais inclusiva.

Que o Estado tem um papel essencial no sentido de aplicar políticas inclusivas, melhorar a acessibilidade de todo e qualquer espaço público – prédios, parques, clubes etc. -, não resta a menor dúvida. E, aos poucos, algumas cidades, estados, políticos e administradores públicos começam a implementar tais ações; porém – e esse é um importante porém – só o farão de fato a partir do momento em que nós cobrarmos, como cidadãos. E cobrarmos muito.

Mas, para isso, é preciso incorporar a atitude e se importar de verdade. Brigar não só por você ou por seus interesses pessoais, mas também pelos outros, principalmente aqueles com alguma limitação. E que não são poucos.

No último censo, elaborado em 2000, as pessoas com deficiência somavam mais de 24 milhões no Brasil, isto é, uma em cada oito pessoas tem algum tipo de dificuldade crônica. Um dos grandes responsáveis por um número tão alto assim é a violência urbana. É assustador, no Brasil, o número de pessoas com deficiência em função de violência urbana – são assaltos, balas perdidas, e outros acidentes (inclusive os de trânsito, que chegam a números impressionantes) que lhes alteram totalmente o curso da existência, em geral ainda muito jovens.

Estamos falando de uma população grande, onde, desses 24 milhões, 48% são deficientes visuais, 27% são deficientes físicos ou com mobilidade reduzida, 16% têm algum tipo de deficiência mental, e 8% são deficientes auditivos. Essa po-pulação equivale à população da Austrália ou da Malásia, que são países grandes. Ou, ainda, duas vezes a população de Portugal ou do Chile.
Pensado sob a ótica mercadológica, se mais de 24 milhões de brasileiros se relaciona com pelo menos três pessoas (pai, marido, mãe, filho, irmão etc.), é natural que o número de pessoas abertas a se informar e a consumir produtos pensados especialmente para esse público atinja, no mínimo, a casa dos 100 milhões de consumidores. Só não vê quem não quer.

Alguns deficientes falam que querem ser iguais a todos enquanto outros dizem que nunca serão iguais ao resto das pessoas. Por enquanto não são. O livro “Vai encarar?” de Claudia Matarazzo descreve uma situação vivida pela atual vereadora Mara Gabrilli no Japão: “Mara Gabrilli, tetraplégica, estava no Japão e entrou com sua cadeira de rodas superpossante em um restaurante que lhe haviam recomendado. Lá, vendo a longa fila de pessoas que esperavam para se servir e usando o conceito de que pessoas com deficiência têm preferência, assim como idosos e gestantes, achou natural se dirigir ao início da fila.

Lá chegando foi interpelada por um funcionário do restaurante que lhe informou que era para ela voltar ao final da fila[…]. O sujeito explicou: “Esse restaurante é totalmente adaptado, não há dificuldade de acesso, os balcões para servir são abaixados à altura das cadeiras de rodas e observamos todas as normas do Desenho Universal. Além do mais, a senhora está sentada e pode esperar no final da fila, sim…”.

O Desenho Universal é um conceito que tem como objetivo definir projetos, produtos e ambientes que atendam a toda diversidade humana: crianças, adultos altos e baixos, anões, idosos, gestantes, obesos, pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. É um conceito que defende um mundo de acessos universais, sem segregações. E alguma coisa me diz que o Brasil não se assemelha muito ao Japão, pelo menos nesse quesito.

Outro ponto importante para se ressaltar dentro desse assunto é que nem todos podem ser deficientes, mas um dia todos serão idosos. E o Desenho Universal é importantíssimo para a terceira idade, que por sua vez não tem deficiência, mas sim algum tipo de limitação (ouve mal, anda com dificuldade, não tem forças…). Isto é, não é apenas um interesse de inclusão do deficiente, que é um grupo seleto e minoritário, mas sim também do idoso, do qual todos nós fazemos parte.

Para os deficientes físicos serem iguais a todos, o Desenho Universal deve ser aplicado. Isso é inclusão.
Eles não são invisíveis. Se, por um lado, estão acostumados a uma série de dificuldades e conseguem superar contratempos e situações incríveis, há uma coisa que nenhum deles administra facilmente e da qual todos eles, sem exceção, se queixaram: ele preferem os obstáculos físicos e concretos do que a polida barreira da indiferença usada para “não invadir” ou “ofender” – e que acaba revestindo-as com uma dolorosa capa de invisibilidade.

Ninguém gosta de passar despercebido na vida. Todos nós gostamos de reconhecimento e precisamos ter clareza quanto ao nosso papel dentro da família, da comunidade e do mundo. Mas, para isso, é preciso que nos enxerguem, e não que tentem negar nossa existência por puro comodismo, ou por medo do desconhecido.