Feiras-livres continuam ativas e atraindo público

Posted on 30/09/2010 por

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Mais antigas do que imaginamos, as feiras-livres estão presentes nas cidades há muito tempo. Algumas fontes apontam para os Estados Antigos da Grécia e Roma como os locais do surgimento dos primeiros agrupamentos para intercâmbio de mercadorias. Contudo, a maioria dos historiadores, como o pernambucano Armando Souto Maior (1926-2006), entendem a Idade Média como o princípio, ou pelo menos a expansão, das feiras em uma formação mais próxima das que temos hoje.

Souto Maior, em seu livro História Geral (Ed. São Paulo, 1978), escreve que o contato comercial com o Oriente foi um dos principais motivos do aparecimento de muitas cidades da Europa Ocidental. Logo, a concorrência comercial estimularia os descobrimentos e a expansão da civilização européia no século XVI.  Daí em diante, com a Revolução Comercial (séc. XV ao XVII) marcada pela implementação da economia monetária e a expansão demográfica constante que o continente europeu passaria, a existência das feiras foi um fenômeno social e econômico natural. Todo esse ambiente só intensificaria ainda mais a atividade.

No Brasil, as feiras existem desde o tempo da Colônia.  Segundo a Prefeitura da Cidade de São Paulo, só no município elas existem desde o século XVII, “haja vista a ocorrência de uma certa oficialização para venda, em 1687, de ‘gêneros de terra, hortaliça e peixe, no Terreiro da Misericórdia’”. Ainda de acordo com o histórico do portal de Coordenação das Subprefeituras, a oficialização do nome “Feira Livre” só veio em 1914, na gestão de Washington Luiz, à época prefeito da cidade em seu primeiro ano de exercício.  Dezesseis anos antes de o futuro presidente do país ser deposto pelo golpe que daria o poder a Getúlio Vargas, a primeira feira livre oficial contava com apenas 26 feirantes, sendo realizada “a título de experiência”, no Largo General Osório, no centro de São Paulo. Atualmente a cidade conta com 846 feiras-livres.

Visitamos duas feiras de São Paulo. A do Pacaembu, bairro nobre da capital paulistana, e a da Praça Roosevelt, na região central da cidade, local marcado pela transição de pessoas e comércio intenso. Distintas entre si, mas que ainda sobrevivem tentando manter a antiga tradição do comércio de rua.

“Bom dia senhora…”

A feira do Pacaembu, em São Paulo, é silenciosa. Não importa se o cliente chega ali às 8 da manhã ou ao meio-dia, a única coisa que ele vai ouvir dos feirantes é um sonoro “bom dia”. É uma feira livre de rua localizada na Praça Charles Miller, em frente ao estádio de futebol Paulo Machado de Carvalho, mais conhecido como Pacaembu. Esse mercado a céu aberto guarda vantagens que atraem gente de toda a cidade. Há vagas de sobra e até guardador para os carros. Com o espaço generoso entre as barracas, é possível até fazer uma compra no estilo drive-thru. O carro passa e o feirante entrega a sacolinha com os produtos escolhidos pelo freguês. Essa ainda não é uma prática comum por lá, mas é perfeitamente possível.

“Fazemos isso geralmente com a clientela idosa ou com os deficientes”, explica o guardador de carros Zequinha, que já está lá há 15 anos e vive de caixinhas dadas pelos frequentadores. Ele conta que por lá já passaram muitos jogadores famosos do Corinthians, como Jorge Henrique e Iarley, a atriz Marisa Orth, o animador de palco do Gugu Liminha, entre outros. “Eles vem aqui com uns carrões pra comer pastel e lanches”, conta.

O pastel do Pacaembu é bem conhecido e as bancas – sempre cheias – ficam logo na entrada da feira. Os mais disputados são o Pastel da Maria, que venceu o concurso “O Melhor Pastel de Feira de São Paulo” em 2009 e o da Barraca do Zé, eleito seis vezes pela revista Veja SP como o melhor pastel de feira da cidade. Os responsáveis pela fama são Maria Kunico, que trabalha em feira-livre há 30 anos e José Hiromi Mori, que está no Pacaembu desde 1979. Caldo de cana e água de coco completam o cardápio de quem vai para a feira comer.

O feirante João Ricardo – que vende biscoitos, queijos e azeites no Pacaembu – aceita cartão de crédito e débito. A máquina é ligada à bateria do carro que transporta sua barraca. O sinal da máquina é recebido através de antenas de celular. Ele também trabalha em outras feiras. Às terças, quintas, sextas e sábados vai para o Pacaembu. Às quartas-feiras trabalha em uma feira no Tatuapé e aos domingos na Vila Prudente, bairros da zona leste de São Paulo. Ele conta que a do Pacaembu é sempre a mais tranquila e silenciosa. “Lá (zona leste) dá 11 horas, começa a gritaria. É a hora da xepa”. Diferente das outras, no Pacaembu não tem a xepa, momento que os preços das frutas e hortaliças caem. “Aqui não tem produtor, vem tudo do Ceasa. Então de manhã ou à tarde, os preços são os mesmos em todas as barracas, não mudam”, comenta.


“Aqui você pode comprar. Parece mercadoria roubada, mas não é. Vem que tá barato…”

Distante apenas 2,5 quilômetros da praça Charles Miller, onde fica a feira do Pacaembu, há um comércio diferente. Todos os domingos a Praça Roosevelt, no centro de São Paulo, abriga o barulho da feira de rua que acorda os moradores bem cedo e recebe os recém saídos das casas noturnas da região, que vão até lá em busca de um pastel feito na hora para encher o estômago antes de ir pra casa e para a cama.

Outras figuras da região são os moradores de rua, já que há abrigos próximos onde eles passam a noite. Misturados aos frequentadores tradicionais do local, eles estão lá em busca de uma fruta ou legume caído no chão ou apenas para observar o movimento.

“Se eu tivesse um homem gostoso na cama, não estaria aqui tão cedo”, conta Joana Silva, dona de uma banca de temperos e especiarias que trabalha em feiras há 20 anos. Ela chega na praça às quatro da manhã para montar a barraca e os primeiros clientes começam a aparecer por volta das 6 da manhã. Geralmente, são idosos em busca dos produtos mais bonitos e frescos. Os jovens solteiros e os casais com filhos costumam aparecer só às 10 da manhã.

Andando entre as barracas, uma senhorinha idosa oferece limões. Ela conta que todos os domingos sai da sua casa em Guaianazes (zona leste de São Paulo) às três horas da manhã para chegar na região central da cidade às cinco, assim como a maioria dos feirantes que trabalham ali. Indo e vindo entre as bancas há também um senhor que vende sacolas de feira. Algumas são coloridas, outras são feitas com os sacos vindos dos fornecedores que carregam as frutas, grãos e hortaliças.

Com 351 metros e 66 bancas oficiais* esta é uma feira que abriga produtores. Eles vêm de Mogi das Cruzes e Mairiporã, cidades localizadas nos extremos sul e norte de São Paulo. Suas hortaliças são mais frescas, mais coloridas em comparação às vendidas nos supermercados e sacolões. E são livres de agrotóxicos. Na Praça Roosevelt também é possível encontrar graúdos morangos vindos diretamente de Atibaia.

Próximo das 11 horas, a gritaria começa para liquidar os produtos. Afinal, com as novas regras aplicadas pelo prefeito Gilberto Kassab, os feirantes precisam dar início à desmontagem de suas bancas uma hora e meia depois, às 12h30. “Aqui você pode comprar. Parece mercadoria roubada, mas não é”, “Aponta com o dedinho que nós (sic) coloca no saquinho”, “Aqui é mais barato” e, em época de eleições, a mais divertida “Olha a banana Tiririca, pior do que tá não fica”, em referência ao slogan do candidato à deputado federal pelo PR, o palhaço Tiririca.

*Fonte: Prefeitura de São Paulo/ Coordenação das Subprefeituras/ Supervisão de Feiras-livres