Mancia: as faces do futuro e do incerto

Posted on 30/09/2010 por

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É dito que, na pós-modernidade, as pessoas buscam orientação em diferentes esferas: revistas, livros de auto-ajuda e gurus espirituais. Neste último, há os que dedicaram suas vidas, profissionalmente ou não, às artes da adivinhação e, porque não, do auto-conhecimento.

Apresentamos o perfil de cinco pessoas de vidas distintas – classes sociais, profissões, sexo e raça –, mas que encontraram na Adivinhação um ponto comum: Luisa Yasuko Kanashiro,  Marisa Alves, Ana Estrella Vargas,  Yair Alon e Fernanda Rito.

MAPA DO INCONSCIENTE

PROFETISA DO ASFALTO

A vidente Marisa Alves, 40 anos, utiliza a adivinhação como forma de sustento. Marisa descobriu-se sensitiva ainda muito jovem, atualmente é praticante do espiritismo mesa branca, mas afirma ter aprendido a “profissão” com seu pai.

Marisa trabalha do meio-dia ao anoitecer, em um ponto no Viaduto do Chá, São Paulo, em um “consultório” a céu aberto, totalmente improvisado. Em seu “consultório espiritual”, constituído apenas por uma mesa e alguns bancos de plásticos, Marisa atende seus clientes, joga búzios, lê tarô, faz previsões acerca do futuro alheio.

A profetisa do asfalto atende cerca de duas a três pessoas por dia, e cobra R$20,00 reais por consulta, muitos de seus clientes chegam descrentes, apenas por curiosidade, e até mesmo fazem chacota de seu trabalho, mas há também os que acreditam e levem muito a sério suas previsões. A pergunta que fica é: até que ponto a adivinhação pode influenciar a vida de uma pessoa?

AUTOCONHECIMENTO

Ana Estrella Vargas, 26 anos, é socióloga e desde pequena, se interessa pelo mundo da adivinhação.Seu pai gostava muito dessa arte e ela passou a ler livros sobre o assunto.

Ana faz mapa astral e acredita que esta atividade funciona como um autoconhecimento para ajudar o indivíduo a melhorar nos aspectos que não o agradam. Ela diz que em certos momentos da vida, nos sentimos perdidos e tentamos nos entender para fazermos as escolhas certas e ser feliz.

Quanto à questão da arte da adivinhação ser vista como “macumba” por algumas pessoas, Ana diz que são coisas completamente distintas. A astrologia é um estudo muito específico, envolvendo lógica e intuição, mas é uma ciência que qualquer um pode ser autodidata e aprender. E, a partir do momento que você entende, percebe diversas características e receios que nunca havia notado antes, mas ela alega que não é apenas isso que compõe a sua vida, sua criação, suas experiência ao longo dos anos são outros fatores importantes.

Ana dá um exemplo de como funciona o nódulo lunar.

e explica como fazer um mapa astral.

Se tratando da diversidade de culturas, ela respeita todas e acha um absurdo o catolicismo se impor como a única verdade.

Questionada sobre sua opinião em relação as pessoas que não conseguem sair de casa sem ao menos ler o horóscopo do dia, Ana é bem direta dizendo que indivíduos que se comportam desta maneira precisam de tratamento, pois estão inseguras. Ler o horóscopo serve apenas para saber as tendências do dia e se posicionar para fazer com que o dia seja melhor. Horóscopo não funciona como uma regra é apenas uma dica.

Ana Estrella conta que ela conheceu a arte do tarô através de um amigo da família e nesse dia, ela tinha achado algumas cartas do tarô e esse amigo que tinha acabado de conhecer, leu as cartas e disse como ela era. Isso atiçou a sua curiosidade em estudar a arte do tarô.

Até hoje, ela tem uma imensa gratidão por essa pessoa que a ensinou a acreditar que ela era capaz de realizar seus sonhos.

“O QUE ILUMINA”

Yair Alon é autor do livro Astrologia da Cabalá – Teoria e Prática e orienta pessoas que chegam até ele com dúvidas sobre a vida. Yair Alon, na verdade, é pseudônimo de Diego Raigorodsky, um linguista (mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica) natural de Jerusalém, Israel, de 24 anos que começou a estudar Cabalá por conta própria aos 14 anos e, por isso, encontrou muitas dificuldades.

Diego, ou Yair, diz ter começado a estudar a astrologia por um acaso já que, segundo ele, há outros assuntos mais interessantes dentro da Cabalá, como reencarnação, alma gêmea etc. Entretanto, vendo que muita gente se interessava por isso, decidiu continuar estudando para ajudar as pessoas – não por um acaso, Yair significa “o que vai iluminar”. Apesar de seu livro conter material o suficiente para que uma pessoa construa seu próprio mapa astral (já que conta com traduções inéditas de manuscritos), as pessoas continuaram a procurá-lo, em busca de cursos, palestras e orientação.

A religião não permitiria que ele estudasse tão cedo. A família também não o influenciou. Então, como Diego começou seus estudos, do nada? “Foi! Ou do destino, ou do nada, Deus quis, não sei. Mas não teve influência de ninguém, nem religião, nem família”, diz.

Ser autodidata tem seus problemas e com Diego não foi diferente. Além do mais óbvio, que é não ter para quem perguntar, ele ainda se deparou com resistência dos mais experientes, que o consideravam “moleque” demais para iniciar seus estudos. Encontrar fontes também se tornou difícil, já que boa parte do material está em manuscritos (muitos em aramaico, o que o fez também ser autodidata na língua), na seção de livros raros de bibliotecas, e não em livros publicados.

Um olhar mais atento verá que, além dos livros de Cabalá, Yair tem, em seu quarto, baralhos de tarô, além de búzios, runas. Ele explica que, até chegar na Cabalá, passou por muitas coisas, impulsionado pela insatisfação com a religião. Assim como ele, as pessoas que o procuram possuem esse sentimento. “Talvez, se a religião se propusesse a responder um pouco mais, as pessoas não precisassem desse tipo de coisa”, desabafa.

É assim que Diego Raigorodsky, o tradutor e linguista famoso no Youtube por seus vídeos de “português descomplicado”, dá lugar a Yair Alon, “o que ilumina”. Yair cobra R$50 apenas na primeira consulta, deixando as outras gratuitas, ministra cursos e palestras em pequenos grupos, mas, ultimamente, tem sido chamado para ministrá-los em escolas maiores.

EXPERIÊNCIAS PRECOCES

À primeira vista, Fernanda Georgia Rito é mais uma jovem de 18 anos, que acabou de sair do ensino médio, trabalha como secretária e sai com os amigos de final de semana. De fato, ela é mais uma jovem, com alguns elementos a mais. Fernanda se envolve com adivinhação desde os quatro anos de idade. Aos 9, começou a ler baralhos pois sua mãe, que não tinha aonde deixá-la, levou-a para cursos na Sociedade Brasileira de Eubiose. Apesar da tradição passada por sua mãe, o interesse de Fernanda veio por conta própria, quando começou a fazer mais cursos.

Ela explica que não há milagre nas cartas, as coisas só acontecem quando se acredita: quem lê as cartas orienta a pessoa a seguir um caminho, que deve ser seguido para que um determinado resultado seja obtido. Caso não seja, a previsão não estará certa. Simples?

Fernanda é mais envolvida com o baralho cigano, que foi criado por uma cigana chamada Tessara (Santa Sara, padroeira dos ciganos). A cigana, segundo a entrevistada, criou o baralho com base nos quatro elementos e foi acusada de bruxaria. Hoje em dia, o cenário é mais favorável, menos preconceituoso, o que permite que charlatões tirem proveito de pessoas crédulas. Fernanda, que também frequenta centros de umbanda, acredita que não se deve pensar apenas no dinheiro, mas sim que se trata, na verdade, de um orientador espiritual, que mostra caminhos. Por isso, ela não costuma ler o futuro, prefere abrir a visão de quem a procura, mostrando maneiras de se resolver algum impasse. Entretanto, ela não consegue abrir seus próprios caminhos: é raro encontrar pessoas que tiram as cartas para si. “A gente quer enxergar o que a gente quer, então como vou ler uma coisa se eu posso transformar a resposta?”, esclarece.

Quando trabalhava com seu pai, a jovem lia para, em média, sete pessoas por dia, cobrando R$50 por consulta. Achou caro? Segundo ela, há pessoas que cobram bem mais: “uma amiga da minha mãe pediu pra ela ler o baralho, ela não gostou do que minha mãe leu, procurou um cara na internet que falou ‘deposita R$1500 na minha conta que eu faço o trabalho e o cara volta pra você’.”.

Apesar do estudo e da paixão pelas cartas, admite: parou de abrir o baralho porque as pessoas não aceitavam sua leitura. “Você vai ler uma coisa e a pessoa não quer ouvir o que você vai falar, ela quer ouvir que vai conseguir o emprego dos sonhos, por exemplo. Não é bem assim”.

Além de baralho cigano e outros tarôs, Fernanda também estuda Numerologia e continua praticando com suas amigas, que sempre a procuram para consultas.

Músicas:

The Mummer’s Dance – Lorena McKenitt
Lamento Cigano
Blackmore’s Night – Shadow of the Moon
Adiemus – Enya
Failure – A Sunny Day In Glasgow

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