Comunidade boliviana sobrevive em São Paulo

Posted on 07/10/2010 por

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Comunidade Boliviana sobrevive em São Paulo

Comunidade boliviana em São Paulo

Bandeiras: Bolívia e Brasil

São Paulo possui uma grande quantidade de imigrantes bolivianos que procuram  melhores condições de vida na cidade. A situação lamentável que são tratados, sujeitos à exploração de sua mão de obra, é pouco abordada nos grandes veículos de comunicação, ignorando a dimensão dessa comunidade.

“A comunidade boliviana na cidade de São Paulo pode reunir até 100 mil pessoas pelas estimativas da Pastoral dos Migrantes Latino-americanos, embora o consulado da cidade de São Paulo reconheça a existência de 50 a 70 mil imigrantes clandestinos. Dentre os seus membros estima-se que um terço se constitui de profissionais liberais, comerciantes e donos de oficina, enquanto dois terços representam trabalhadores clandestinos, denominados também de indocumentados, muitos trabalhando como costureiros em oficinas de confecção. A maioria dos imigrantes é do sexo masculino, não ou pouco qualificado, entre 20 e 40 anos, a idade melhor do ponto de vista produtivo”, como divulgado em “Entre o tráfico humano e a opção da mobilidade social: a situação dos imigrantes bolivianos na cidade de São Paulo” de Maria Cristina Cacciamali e Flávio Antonio Gomes de Azevedo.

Dados:

“Segundo o censo 2000, 20388 imigrantes bolivianos formam o oitavo contingente de imigrantes e 3,0% do total dos nascidos no exterior residentes no Brasil. O volume total de imigrantes no Brasil diminuiu a um ritmo médio anual de 1,28 % entre 1991 e 2000, a população nascida na Bolívia aumentou em 2,95% ao ano em média no período. Somente os contingentes de imigrantes peruanos (7,1%), paraguaios (4,73%) e angolanos (3,38%) superaram esse ritmo de crescimento.”

Estimativas feitas pelo Ministério do Trabalho e Emprego apontam que varia entre 10 e 30 mil o número de imigrantes indocumentados. Enquanto que o Sindicato das Costureiras fala em um númeor de 80 mil trabalhadores irregulares aproximadamente.

“O Ministério do Trabalho e Emprego tem uma estimativa que varia entre 10 e 30 mil  indocumentados, o Ministério Público fala em 200 mil bolivianos ao todo (regulares e irregulares) o Sindicato das Costureiras fala em 80 mil trabalhadores irregulares (o que inclui famílias brasileiras e bolivianas).”

Uma das caracteríticas da comunidade boliviana é a sua forte concentração em zonas residenciais, onde estabelecem grandes centros culturais. Um exemplo é o bairro do Pari, em São Paulo, cidade que, segundo o geógrafo Sylvain Souchaud, é responsável por abrigar a maior concentração desses imigrantes no país.

“A imigração boliviana no Brasil caracteriza-se por uma forte concentração em poucos lugares, distantes e diferenciados. Concentração, dispersão e variedade, podem aparecer caractrísticas contrárias, mas é o que se evidencia quando examinamos a distribuição dos imigrantes bolivianos considerando seus municípios de residência. Em 2000, o município de São Paulo era lugar de residência de 38% do total dos imigrantes bolivianos residentes no Brasil e 44% se considerarmos a Região Metropolitana de São Paulo.” (Sylvain Souchaud, geógrafo, pesquisador do Institut de recherche pour le développemen t(IRD-França) e pesquisador colaborador do Núcleo de estudos de população (NEPOUnicamp).

Trabalho nas Oficinas de Confecção

No Brasil e em outros países muitas indústrias têxteis utilizam mão-de-obra imigrante clandestina a fim de driblar as rígidas leis trabalhistas que existem, direito de todo cidadão brasileiro. Maria Cristina Cacciamali e Flávio Antonio Gomes de Azevedo relatam a história das oficinas de confecção, que hoje atraem os imigrantes bolivianos, mas que já foi trabalho de muitas outras comunidades.

Conforme explicam os dois pesquisadores, a comunidade judia, ao longo do século XX, liderava essa atividade de “funcionário imigrante clandestino”, em São Paulo. A partir da década de 70 com o grande fluxo de imigrantes coreanos para a cidade o cenário foi se transformando até que os coreanos se tornaram os principais explorados.

Os anos se passaram e o fluxo migratório coreano diminuiu, com isso as indústrias passaram a explorar a mão-de-obra dos migrantes nordestinos, contudo esses migrantes são protegidos pelas leis trabalhistas nacionais e frequentemente recorriam à Justiça do Trabalho a fim de obter seus direitos, o que levou o setor industrial, principalmente o têxtil,  começar a utilizar o trabalho dos imigrantes latinos (paraguaios, peruanos e bolivianos).

A opção pela mão de obra boliviana é justificada devido as condições sociais e econômicas da comunidade em sua terra natal. Os bolivianos já possuíam experiência com tecelagem e a condição precária de trabalho não são tão diferentes quanto às das fábricas brasileiras.

Anos 90: Auge da imigração

A partir da década de noventa a imigração boliviana aumentou consideravelmente. O trabalho é, desde então, em grande parte oferecido pela comunidade coreana que estão no país há mais tempo e já tem melhores condições financeiras.

“A entrada clandestina de emigrantes bolivianos aumenta ao longo dos anos de 1990. A partir de então, a indústria do vestuário continua sendo dominada pela comunidade coreana, que pratica em geral contratos triangulares de trabalho. A condição de agenciador ou empreiteiro em geral é assumida por um boliviano, por vezes clandestino, mas também pode ser assumida por um brasileiro.”*

A entrada no território brasileiro é feita de maneira ilegal e conta com a participação de inúmero agenciadores. Maria Cristina Cacciamali e Flávio Antonio Gomes de Azevedo explicam com riqueza de detalhes o trajeto.

“Os trabalhadores são recrutados nas cidades de Santa Cruz de la Sierra, La Paz e Cochabamba, que funcionam como polos receptores dos emigrantes procedentes das regiões andinas mais pobres da Bolívia onde as atividades econômicas mercantis são muito reduzidas. Nessas localidades o recrutamento é realizado por várias mídias nas cidades de maior porte e de redes de contatos informais nas vilas andinas. A viagem é realizada principalmente pelo Paraguai, onde os emigrantes aguardam em ninhos o momento para atravessar a fronteira pela Ponte da Amizade. Durante a espera muitas vezes não há comida ou água. A viagem para São Paulo é realizada de ônibus. O trajeto também pode ser realizado através da região de Corumbá ou da região amazônica.” *

A imigração é justificada pela procura de melhora de qualidade de vida, e eles obtém sucesso neste ponto. A condição de vida melhora ligeiramente para os bolivianos, que criam relações de laços com seus empregadores.

“Tendo como ponto de referência as relações sociais do local de origem, ele [o imigrante] no Brasil se encontra numa situação de menor pobreza do que antes. O agenciador/empreiteiro lhe oferece uma oportunidade de trabalhar, de juntar dinheiro e de melhorar de vida: na realidade, está lhe fazendo um favor Desse modo, as relações entre os costureiros das oficinas de confecção e o empregador muitas vezes podem ser caracterizadas como familiares ou de compadrio, estabelecendo-se e evoluindo em uma condição ambígua de fidelidade e de sobrexploração. “*

O trabalho pode evoluir para um tipo de servidão, mas, pelos laços paternalistas já explicados, a condição é aceita, visto que por serem imigrantes ilegais não podem contar com a legislação trabalhista brasileira.

“A relação tanto pode evoluir para o tipo servidão por dívida ou dirigir-se para uma relação paternalista. O trabalhador só vai receber o dinheiro pelo seu trabalho quando for embora pelo término do vínculo ou devido a uma emergência, por exemplo, um problema de família. “*

“A sobrexploração é suportada porque ocorre no meio de uma relação familiar. O empregador no local de destino é a conexão com a sua família original, que nesse local faz muitas vezes o papel de sua família.

Além dos baixíssimos salários que os imigrantes bolivianos recebem, muitas vezes eles tem que pagar para usar a maquinaria da fábrica, obrigando-os a trabalhar mais para conseguir o lucro. Esse tipo de trabalho já pode ser entendido como servidão por dívida.

Em nome da fidelidade e da possibilidade de trabalhar, o imigrante clandestino exerce um contrato de trabalho verbal no qual ele é remunerado por peça, totalizando um salário-hora muito abaixo da mão de obra local e exercendo uma jornada extensa de trabalho, que pode atingir 16 ou 18 horas por dia. Por vezes paga parceladamente a compra da máquina de costura que usa na oficina, obrigando-o a trabalhar com maior intensidade para perceber alguma remuneração em dinheiro.”*

O trabalho compulsório sobrevive graças a ambição dos bolivianos, que vêem como um futuro próspero, ser o próprio agenciador. A praça Kantuta, centro que reúne tradições bolivianas, também é um pólo para agenciar novos trabalhadores ilegais.

“O sonho de todo trabalhador que esta na oficina é juntar dinheiro, ficar no Brasil, continuar no ramo e tornar-se também um proprietário, dono de oficina. Reproduzindo, provavelmente, as relações de recrutamento e trabalho que lhe foram oferecida/imposta pelo seu compatriota.”*

Os trabalhadores bolivianos há mais tempo no país que se encontram estabelecidos fora das oficinas são recrutados em praça pública. Na Praça Kantuta, no Pari, bairro da cidade de São Paulo, proprietários de oficinas, na sua grande maioria, bolivianos e coreanos, e trabalhadores bolivianos se encontram. Em praça pública, fazem-se as contratações e estabelecem-se as remunerações.”*

(*)Os dados são trechos divulgados no trabalho de Maria Cristina Cacciamali e Flávio Antonio Gomes de Azevedo.

(**) fotos retiradas do trabalho de Sidney Antonio da Silva

Praça Kantuta

Barracas de comidas na Praça Kantuta em data não comemorativa

Os bolivianos de São Paulo se reuniam na praça Padre Bento para realizar uma feira clandestina, que atrapalhava o trânsito e atraía jovens em busca de bebedeiras. Os moradores do Pari organizaram um abaixo-assinado para retirar os bolivianos do bairro. Então, em 2000, a prefeitura procurou os imigrantes para que estes se organizassem e procurassem um novo ponto de encontro. Surgiu a Associação Gastronômica Cultural e Folclórica Boliviana Padre Bento, que desde 2002 dá continuidade à feira, hoje legalizada, na praça Kantuta.

A praça funciona como um centro de resistência  da cultura andina na cidade de São Paulo e recebeu o nome de Kantuta em 2004. Aos domingos ocorre uma feira aberta, típica e tradicional da comunidade, lá é possível ver e comprar  produtos artesanais, comida e outros produtos de origem boliviana, além de também oferecer educação aos filhos dos imigrantes, na maioria residentes ilegais e trabalhadores da indústria têxtil local.        

Feira Kantuta: todos os domingos, das 11h às 19h, na praça Kantuta – altura do no 625 da rua Pedro Vicente, bairro do Pari, São Paulo (SP).

Como chegar: de transporte público, desça na estação Armênia do metrô, saída para a rua Pedro Vicente. A praça da Kantuta está a 700 metros. De carro, vá pela Avenida Cruzeiro do Sul, sentido bairro, e vire à direita na rua Pedro Vicente.

Quando ir: principalmente nas datas de festas: “Festa das Alacitas”, em 24 de janeiro; Carnaval; Dia das Mães; Independência da Bolívia, em 6 de agosto; aniversário de cidades bolivianas (o de Copacabana, por exemplo, é em 6 de junho); Dia das Crianças e Natal. Muitas apresentações folclóricas com música ou dança ocorrem também fora das datas festivas.

Comidas típicas da Bolívia são uma das atrações da praça. O anticucho ( coração de boi no espeto), as empanadas e salteñas, o api (suco quente de milho roxo) o allajo (tomate com folha aromática) e o buñuelo ( uma massa caseira frita como a do pastel, mas que não tem recheio). Na parte de artesanato da feira é possível observar peças em argila e em madeira. Bolsas, malhas e panos também são vendidos, e quase todo material é trazido da Bolívia, feitos de lã de lhama, macia, leve e bem quente. As malhas, os vasos e potes têm os desenhos característicos dos Andes. Objetos musicais também são nas barracas, além da típica flauta de pã boliviana, tem a zampoña, a quena e a tarkas, outros objetos como o charango e tambores de percussão também são encontrados.

Artesanatos, instrumentos musicais e outros produtos das barracas da Kantuta

Apresentações de grupos musicais bolivianos também ocorre na Kantuta, porém a grande maioria só nas datas importantes na Bolívia, como a “Festa das Alacitas”, em 24 de janeiro, a Independência da Bolívia, em 6 de agosto e o Carnaval (na mesma época em que o brasileiro). Algumas datas daqui são motivo de comemoração também como o dia das mães e o das crianças. Existem ainda as barracas que cortam cabelo e outras que exibem programas de TV bolivianos e que também vendem CDs, DVDs e publicações locais.

À tarde, na quadra que fica no centro da praça, 19 times bolivianos e um brasileiro, do bairro, disputam um campeonato de futebol de salão. Quem quiser ver de perto tudo isso pode chegar ao Pari às 11 da manhã. Mas é ao cair da tarde que a Kantuta enche, sobretudo de jovens latino-americanos.

Considerações:

Pela condição ilegal de muitos imigrantes bolivianos, conseguir imagens e áudio é extremamente difícil. Para essa reportagem tentamos esse contato na Praça Kantuta, já apresentada no trabalho, mas sem sucesso. Os imigrantes desconfiaram na nossa equipe e não deixaram ser gravados de forma alguma. As entrevistas eram vagas e rápidas e assim não conseguimos conhecer suas vidas pessoais. O grupo optou por não usar métodos de gravação escondido para não confrontar com discussões éticas.

Assim, nosso objetivo de apresentar a comunidade boliviana em São Paulo teve outra perspectiva. Com indicações do CAMI (centro de apoio ao imigrante) tivemos acessoa a uma ampla referência bibliográfica de especialistas que puderam explicar melhor o tema.
Com tema de difícil abordagem e o tempo de execução da matéria  pequeno, todo material que puder contribuir para sua melhor exploração é bem vindo. Assim, utilizamos links e vídeos de outros trabalhos sobre o assunto.

Referências:

http://noticias.r7.com/internacional/noticias/eleicao-entusiasma-bolivianos-em-sao-paulo-20091205.html