As lutas do Movimento Estudantil na PUC-SP

Posted on 02/12/2010 por

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Uma parte da história

Para entender como funciona o movimento estudantil atual dentro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) é necessário voltar no tempo pelo menos 30 anos e relembrar um episódio que deixou uma grande mancha na história da universidade. A invasão policial de 1977, durante a Ditadura Militar no Brasil, que foi de 1964 a 1985.

Durante a ditadura o movimento estudantil passou a ser alvo de forte vigilância e controle policial. Essa atitude foi resultado, sobretudo, de anos de intensa atividade e radicalização por parte dos estudantes. Por isso, de 1969 a 1973, o movimento perdeu um pouco de sua força e integração entre as diversas universidades, ficando apenas no âmbito das faculdades. Afinal, muitas pessoas temiam serem presas e torturadas, como acontecia com os considerados “inimigos políticos” à época.

A fragmentação do movimento estudantil durante esses anos fez com que, a partir de 1975, ocorresse um afrouxamento da vigilância policial sobre os estudantes. Foi aí que eles ganharam força novamente e passaram a realizar encontros secretos e, posteriormente, atos públicos a favor da liberdade. Alguns ocorriam sem grandes problemas, outros terminaram em repressão.

Neste contexto, vale citar o III Encontro Nacional dos Estudantes (ENE), que só pode ser realizado secretamente após duas tentativas reprimidas pela polícia. Um dos pontos de discussão do encontro era a recriação da União Nacional dos Estudantes (UNE), instituição que a ditadura tentava impedir que ressurgisse.

Foi assim que, a partir de março de 1977, houve um significativo aumento de passeatas estudantis de rua. A primeira, no dia 30 de março, foi de estudantes da Universidade de São Paulo (USP) e reuniu cerca de 3000 pessoas sem nenhum tipo de repressão. A segunda, no dia 3 de maio, reuniu cerca de 5000 estudantes da PUC-SP e deu origem ao Comitê Primeiro de Maio pela Anistia, formado por segmentos diversos da sociedade civil. Também não houve interferência policial. O terceiro, no dia 5 de maio, ocorreu no Largo São Francisco e reuniu cerca de 10 mil estudantes. Esta foi a primeira passeata reprimida.

A partir daí, ocorreram mais oito mobilizações com milhares de estudantes antes da invasão da polícia a PUC-SP, sendo que seis destas foram reprimidas e/ou abortadas pela ditadura. O ato público da PUC-SP em 22 de setembro de 1977 pretendia comemorar a realização secreta do III ENE. Aproximadamente 5000 estudantes se reuniram na universidade neste dia.

Mas o que levou a polícia a entrar na PUC e repreender os alunos com violência? Não há uma resposta certa para esta pergunta. Porém, alguns caminhos tentam justificar o ocorrido. O primeiro vem dos próprios policiais. Quem responde é o coronel Antonio Erasmo Dias – à época secretário de Segurança Pública do Estado e apontado como principal mentor da ação policial – em um depoimento dado para Renato Cancian autor do livro “Movimento Estudantil e repressão política” que tem como base o ato público de 1977 na PUC-SP.

“Nunca gostei de policial militar perto de estudante. Mas naquele dia a situação exigia a presença de policiais, porque tinha tanto estudante amontoado que a própria massa podia gerar consequencias trágicas para eles mesmos. É igual o que acontece com as torcidas de futebol. Eu tenho pavor de massa. Com massa só tem uma saída: evitar que ela adquira poder explosivo.”

Em outro depoimento de lideranças estudantis da USP na época, retratado no mesmo livro, fica claro que eles próprios não imaginavam que o movimento poderia ter tanta força.

“No início de maio de 1977, não poderíamos prever a magnitude que o nosso movimento iria adquirir naquele ano […] quase como se fosse da noite para o dia mais de cinco mil pessoas em frente à PUC, e, três dias depois, mais de 10 mil pessoas em pleno centro da cidade, em pleno Largo São Francisco (…).”

Sendo assim, o autor Renato Cancian conclui que o governo também foi pego de surpresa , mas ao mesmo tempo percebeu que o caráter massivo dos protestos era um sinal de que faltava uma organização nacional estudantil. Se organizados, os estudantes teriam uma força extraordinária. Portanto, ao olhar da ditadura, eles precisavam ser barrados pela policia de qualquer forma, até mesmo com o uso da força.

No dia 22 de setembro de 1977 900 policiais entraram na PUC para conter o ato estudantil, entre eles homens da tropa de choque da polícia militar, policiais civis e agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Houve violência e 200 estudantes foram presos. O pânico daquele dia só pode ser descrito por quem esteve lá. É o caso de Valdir Mengardo*, atual professor do Departamento de Jornalismo da PUC.

“A polícia batia. E batia muito. Eles fizeram um corredor polonês na rampa principal da PUC e, à medida que os estudantes passavam, tomavam bordoadas. Praticamente todo mundo apanhou. Senti muito medo. Na década de 70 você não tinha garantia nenhuma. Se fosse preso, você estaria lesado. Meu grande medo era saber que eu já tinha sido fichado no DOPS (em 1968 devido a uma música que fora censurada em um festival em Capivari-SP) e, de repente, eles cruzariam informações e eu ficaria mesmo detido. Muitos abriram portas para se esconderem em salas de aula, ou qualquer coisa parecida. De repente, abriram uma sala onde tinha o coral da PUC cantando. O maestro percebeu o que estava acontecendo, mandou que eles entrassem e ‘mexessem a boca’. E o coral que geralmente era composto por 15 pessoas, ficou com 50. Esses se livraram e foram liberados com o coral (…).”

Outra pessoa que estava no ato em 1977 é Maria Inês Nassif*, atual editora de opinião do jornal Valor Econômico, que também dá seu depoimento.

“Lembro que, quando usadas, as bombas de gás lacrimogêneo deixavam rastros de fogo pelo chão e queimaram seriamente aquelas meninas. As bombas estavam vencidas. Essas bombas já haviam sido usadas numa outra manifestação na Penha e apresentaram o mesmo problema. Corremos para dentro da PUC e eles correram atrás de nós portando metralhadoras, cassetetes e ódio. Os homens apanhavam mais, mas nós, mulheres, também apanhamos. Afinal, retiraram-nos de lá num corredor polonês (…).”

A segunda invasão da polícia

Em 2007, 30 anos após o ocorrido e em uma situação nacional completamente mudada (hoje vivemos em uma democracia presidencialista), a polícia entrou na PUC novamente. Desta vez, o alvo era 132 (número listado pela polícia militar) alunos que ocupavam a reitoria da Universidade há cinco dias. Eles entraram no local no dia 5 de novembro e foram retirados pela polícia na madrugada do dia 10. Como a universidade é particular, foi emitido um documento de reintegração de posse e a Fundação São Paulo, mantenedora da PUC-SP, autorizou que a polícia entrasse na faculdade e retirasse os estudantes do local.

O ano de 2007 havia sido agitado no movimento estudantil, com a ocupação de diversas reitorias não só em São Paulo, como em outros Estados e a ocupação da PUC teve apoio de outras universidades, como a USP. O motivo principal da ocupação de 2007, segundo os alunos, foi o redesenho da instituição que estava sendo planejado e aplicado pelos setores que comandavam a PUC naquele momento.

Guilherme Simões Gomes Júnior* é professor de Ciências Sociais na PUC-SP e, em 2007, acumulava o cargo de chefe de gabinete da reitoria. Ele, que testemunhou o ocorrido nas universidades em 1977, dá sua opinião sobre as ocupações a reitorias dos estudantes de diversas universidades 30 anos depois.

“(…)Com relação ao que aconteceu em 2007 e agora, em agosto (falando sobre a ocupação da reitoria da USP), eu acho que mostra um esforço mecânico do movimento estudantil em aproximar-se da invasão de 1977. Penso que fazer qualquer analogia é inválida. Mas vejo o ano de 2007 como um momento de retomada do movimento e de suas articulações e lutas sociais. […] Para mim, hoje há uma forte tendência do movimento em perder seu foco. Mesmo com suas reivindicações sendo levadas ao debate, eles continuaram a invasão (da reitoria da USP) e isso me mostra um objetivo intrínseco nas manifestações: estão provocando a invasão policial para mostrar que vivem hoje uma situação nada diferente da ditadura.”

Em 2006 a PUC enfrentou uma forte crise financeira, que teve repercussão nacional, e passou a ser administrada pela Fundação São Paulo, institui. No ano seguinte a Fundação São Paulo, instituição ligada a igreja católica. No ano seguinte, a fundação implantou um redesenho na universidade que, entre outras coisas, promoveu a terceirização de alguns setores como a limpeza e a segurança e acarretou em mais demissões (parte dos funcionários e professores já haviam sido demitidos em 2006, com a explosão da crise financeira). A parte burocrática da faculdade também seria centralizada em um único lugar, tirando parte da autonomia dos cursos. Essa atitude, criou uma grande ineficiência no atendimento aos estudantes. Neste mesmo ano houve a criação de um conselho que teria a decisão final em todas as ações da universidade, que seria composto por dois membros da Fundação São Paulo e o reitor.

Após a ocupação da reitoria e interrupção de várias reuniões por pressão dos estudantes, que em sua maioria eram contra a implementação, a decisão do redesenho foi tomada a portas fechadas em Sorocaba, sem a presença da comunidade da PUC.

A ocupação, além de não ter sucesso em suas reivindicações, ainda acabou por repetir uma cena que não acontecia há 30 anos e que provocou uma grande discussão e uma agitação ainda maior do movimento estudantil dentro da universidade.

A situação atual

Em 2010, o ano começou com diversas discussões entre os centros acadêmicos da PUC-SP. A postura da reitoria em relação as bolsas de estudo – que foram reduzidas – e os altos preços das mensalidades dificultava cada vez mais a manutenção do estudante na faculdade. Com a aprovação do redesenho, as mensalidades escalaram com reajustes bem acima da inflação, some-se a isso a baixa qualidade dos equipamentos e a deterioração crescente das salas de aula e a falta de diálogo com os inadimplentes que muitas vezes eram constrangidos de diversas formas.

Para o movimento estudantil, a vida universitária na Pontifícia se tornava cada vez mais insustentável, algo grave por se tratar de uma universidade filantrópica.

Por isso, o ano contou com três greves de alunos, dos cursos de Geografia, que exigiam a contratação de mais professores; Serviço Social, que lutava por mensalidades mais baixas ou curso gratuito; e Jornalismo- essa encabeçada primeiramente por professores e posteriormente por alunos, que reivindicava a implementação de uma agência online que já se arrastava desde 2008.

Apesar da crescente politização dos estudantes, um consenso sobre as greves estava longe de acontecer. No curso de Jornalismo, por exemplo, ela greve recebeu muitas críticas.

Paralelamente à essas movimentações, todos os cursos se reuniram em um abaixo-assinado, que contou com 2000 assinaturas, para pedir a redução de mensalidades, além de outras reivindicações comuns, como a diminuição dos preços do restaurante universitário, a criação de uma creche para filhos de estudantes e funcionários. Porém, os pedidos dos estudantes foram ignorados em diversas oportunidades, desde a reunião pública que aconteceu no dia 14 de setembro no Tuca, até diversas reuniões do Consad. Sendo assim, por meio de assembleia, os estudantes presentes decidiram por ocupar a reitoria. A ocupação foi feita às 11 da manhã do dia 18 de novembro, uma quinta-feira, e, em poucas horas, já haviam diversos cartazes colados nas paredes com informações e reivindicações da causa.

Segundo estudantes que participaram do ato, foram criadas comissões para cada setor: limpeza, segurança, comunicação e cultura. As tarefas foram divididas e, quando necessário, os integrantes de algum setor ajudaram em outros, pois como as aulas não foram paralisadas, existiam momentos em que determinados setores acabavam ficando com poucos integrantes.

Eles também dizem que, ao contrário do que foi publicado em alguns dos grandes veículos da imprensa, não houve nenhum tipo de violência, e a ocupação foi pacífica e civilizada, inclusive não havendo qualquer prejuízo ao patrimônio da PUC.

Após diversas reuniões, os estudantes decidiram que seria pedida uma redução de mensalidade referente ao que foi aumentado acima da inflação. Por exemplo, se em cinco anos houve uma inflação de 30%, de acordo com o IPC, e digamos que, nos mesmos cinco anos tenha ocorrido um aumento de 42% no curso de administração de empresas, a proposta é que se faça uma redução de 12% que é o que foi ultrapassado em relação à inflação.

A politização dos alunos provou ser contrária ao consenso e, na noite de sexta para sábado, uma nova assembleia foi feita efoi decidido pela desocupação da reitoria.

Alguns estudantes temiam uma possível chegada de tropas de choque. O receio, entretanto, não era nem a violência em si, mas que a entrada da polícia se tornasse uma rotina na faculdade. Além disso, essa seria a única forma de negociação, uma vez que os representantes do Consad afirmaram que não negociariam enquanto a reitoria se mantivesse ocupada.

Em 2010 o saldo da ocupação teve seu lado positivo. Os alunos conseguiram algumas reivindicações, como a redução do preço do restaurante universitário de R$8,90 para R$6,00, uma diminuição no reajuste das mensalidades para 2011 de 12,5% para 9,5%, a abertura de um edital de bolsas de estudo, entre outras coisas.

Atualmente, os estudantes mantêm um blog que pretende manter unido o movimento estudantil da PUC, além de constantes conversas nos espaços de convívio da universidade.

*depoimento dado para a edição especial de “30 anos da invasão da Ditadura Militar a PUC” do Contraponto (jornal laboratório do curso de Jornalismo da PUC-SP), publicada em setembro de 2007

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Uma parte da história

Para entender como funciona o movimento estudantil atual dentro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) é necessário voltar no tempo pelo menos 30 anos e relembrar um episódio que deixou uma grande mancha na história da universidade. A invasão policial de 1977, durante a Ditadura Militar no Brasil, que foi de 1964 a 1985.

Durante a ditadura o movimento estudantil passou a ser alvo de forte vigilância e controle policial. Essa atitude foi resultado, sobretudo, de anos de intensa atividade e radicalização por parte dos estudantes. Por isso, de 1969 a 1973, o movimento perdeu um pouco de sua força e integração entre as diversas universidades, ficando apenas no âmbito das faculdades. Afinal, muitas pessoas temiam serem presas e torturadas, como acontecia com os considerados “inimigos políticos” à época.

A fragmentação do movimento estudantil durante esses anos fez com que, a partir de 1975, ocorresse um afrouxamento da vigilância policial sobre os estudantes. Foi aí que eles ganharam força novamente e passaram a realizar encontros secretos e, posteriormente, atos públicos a favor da liberdade. Alguns ocorriam sem grandes problemas, outros terminaram em repressão.

Neste contexto, vale citar o III Encontro Nacional dos Estudantes (ENE), que só pode ser realizado secretamente após duas tentativas reprimidas pela polícia. Um dos pontos de discussão do encontro era a recriação da União Nacional dos Estudantes (UNE), instituição que a ditadura tentava impedir que ressurgisse.

Foi assim que, a partir de março de 1977, houve um significativo aumento de passeatas estudantis de rua. A primeira, no dia 30 de março, foi de estudantes da Universidade de São Paulo (USP) e reuniu cerca de 3000 pessoas sem nenhum tipo de repressão. A segunda, no dia 3 de maio, reuniu cerca de 5000 estudantes da PUC-SP e deu origem ao Comitê Primeiro de Maio pela Anistia, formado por segmentos diversos da sociedade civil. Também não houve interferência policial. O terceiro, no dia 5 de maio, ocorreu no Largo São Francisco e reuniu cerca de 10 mil estudantes. Esta foi a primeira passeata reprimida.

A partir daí, ocorreram mais oito mobilizações com milhares de estudantes antes da invasão da polícia a PUC-SP, sendo que seis destas foram reprimidas e/ou abortadas pela ditadura. O ato público da PUC-SP em 22 de setembro de 1977 pretendia comemorar a realização secreta do III ENE. Aproximadamente 5000 estudantes se reuniram na universidade neste dia.

Mas o que levou a polícia a entrar na PUC e repreender os alunos com violência? Não há uma resposta certa para esta pergunta. Porém, alguns caminhos tentam justificar o ocorrido. O primeiro vem dos próprios policiais. Quem responde é o coronel Antonio Erasmo Dias – à época secretário de Segurança Pública do Estado e apontado como principal mentor da ação policial – em um depoimento dado para Renato Cancian autor do livro “Movimento Estudantil e repressão política” que tem como base o ato público de 1977 na PUC-SP.

“Nunca gostei de policial militar perto de estudante. Mas naquele dia a situação exigia a presença de policiais, porque tinha tanto estudante amontoado que a própria massa podia gerar consequencias trágicas para eles mesmos. É igual o que acontece com as torcidas de futebol. Eu tenho pavor de massa. Com massa só tem uma saída: evitar que ela adquira poder explosivo.”

Em outro depoimento de lideranças estudantis da USP na época, retratado no mesmo livro, fica claro que eles próprios não imaginavam que o movimento poderia ter tanta força.

“No início de maio de 1977, não poderíamos prever a magnitude que o nosso movimento iria adquirir naquele ano […] quase como se fosse da noite para o dia mais de cinco mil pessoas em frente à PUC, e, três dias depois, mais de 10 mil pessoas em pleno centro da cidade, em pleno Largo São Francisco (…).”

Sendo assim, o autor Renato Cancian conclui que o governo também foi pego de surpresa , mas ao mesmo tempo percebeu que o caráter massivo dos protestos era um sinal de que faltava uma organização nacional estudantil. Se organizados, os estudantes teriam uma força extraordinária. Portanto, ao olhar da ditadura, eles precisavam ser barrados pela policia de qualquer forma, até mesmo com o uso da força.

No dia 22 de setembro de 1977 900 policiais entraram na PUC para conter o ato estudantil, entre eles homens da tropa de choque da polícia militar, policiais civis e agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Houve violência e 200 estudantes foram presos. O pânico daquele dia só pode ser descrito por quem esteve lá. É o caso de Valdir Mengardo*, atual professor do Departamento de Jornalismo da PUC.

“A polícia batia. E batia muito. Eles fizeram um corredor polonês na rampa principal da PUC e, à medida que os estudantes passavam, tomavam bordoadas. Praticamente todo mundo apanhou. Senti muito medo. Na década de 70 você não tinha garantia nenhuma. Se fosse preso, você estaria lesado. Meu grande medo era saber que eu já tinha sido fichado no DOPS (em 1968 devido a uma música que fora censurada em um festival em Capivari-SP) e, de repente, eles cruzariam informações e eu ficaria mesmo detido. Muitos abriram portas para se esconderem em salas de aula, ou qualquer coisa parecida. De repente, abriram uma sala onde tinha o coral da PUC cantando. O maestro percebeu o que estava acontecendo, mandou que eles entrassem e ‘mexessem a boca’. E o coral que geralmente era composto por 15 pessoas, ficou com 50. Esses se livraram e foram liberados com o coral (…).”

Outra pessoa que estava no ato em 1977 é Maria Inês Nassif*, atual editora de opinião do jornal Valor Econômico, que também dá seu depoimento.

“Lembro que, quando usadas, as bombas de gás lacrimogêneo deixavam rastros de fogo pelo chão e queimaram seriamente aquelas meninas. As bombas estavam vencidas. Essas bombas já haviam sido usadas numa outra manifestação na Penha e apresentaram o mesmo problema. Corremos para dentro da PUC e eles correram atrás de nós portando metralhadoras, cassetetes e ódio. Os homens apanhavam mais, mas nós, mulheres, também apanhamos. Afinal, retiraram-nos de lá num corredor polonês (…).”