Não basta ser só “vegetariano”

Posted on 02/12/2010 por

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Ativista exibe sua tatuagem "Vegan for life". Foto: Thiago Oliveira

O veganismo é uma filosofia de vida que combate a crueldade e a exploração de animais, em todas as suas vertentes. Ao contrário do conhecido como vegetarianismo, na sua concepção simplificada de pessoas que não ingerem carnes, os veganos não utilizam qualquer produto de origem animal, sejam eles resultados de suas mortes ou não. Assim, esses praticantes não consomem nenhum tipo carne, laticínios, ovos, lã etc., bem como produtos oriundos de empresas que fazem testes em animais.

“O veganismo é uma posição ética. É a decisão de, através de cada pequena ação da vida, evitar a exploração animal.” (Cristian Sabóia, empresário e coordenador da ONG Consciência Vegan) “

“Vegan não se encaixa só em dieta, é um modo de vida. Sua vida toda você vai ter que se privar de algumas coisas para os animais não terem o sofrimento que eles têm.” (João Pedro, tatuador e ativista do grupo “Holocausto animal”)

Os veganos, a princípio, também são vegetarianos, termo que, etimologicamente, se refere a quem só se alimenta de vegetais. Porém, em uma nova significação popular, a nomenclatura englobou pessoas que também comem ovo e leite, os chamados ovo-lacto-vegetarianos. A palavra “Vegan” é uma abreviação de “Vegetarian” (no português, “Vegano” e “Vegetariano”). O termo surgiu em agosto de 1944 com a fundação da Vegan Society’s por Donald Watson, que deixou a The Vegetarian Society por desavenças ideológicas, após querer adotar uma dieta livre de todos os produtos animais.

Eric de Fontes Sá - estudante de nutrição

A dieta vegana, segundo o estudante de nutrição da USP Eric de Fontes Sá, 26, supre todas as necessidades do corpo. “É possível substituir todos os componentes nutricionais da ingestão de carne”. A proteína, por exemplo,está presente em muitas outras fontes que não são de origens animais, como: batatas, pão integral, arroz, brócolis, espinafre, amêndoas, ervilhas, grão de bico, manteiga de amendoim, tofu, leite de soja, lentilhas, couve etc.”

“Contudo os veganos devem ficar espertos com a vitamina B12 e com o cálcio, presente em folhas escuras, mas que muitas vezes também é suplementado. Recomendo óleo de linhaça como fonte de Omega 3 (encontrada em alguns peixes)”, disse o estudante sobre conselhos para quem quer seguir uma dieta vegana.

A vitamina B12 é produzida por bactérias e está presente em carnes, oriundas do trato digestivo do animal e em vegetais mal lavados. Como não é indicada a ingestão de alimentos sujos, a opção vegana é a suplementação dessa vitamina como remédio ou com alimentos enriquecidos artificialmente.

O cálcio, que muitas vezes associado só com o leite, é encontrado em muitos vegetais, como os de folha verde-escuros (brócolis, couve-de-bruxelas, repolho, e couve-portuguesa, couve em geral, nabiça, etc.), amendoas, feijões…

 

nutricionista Paula Veloso

 

A soja é uma fonte riquíssima de proteínas, com teores maiores que de outras leguminosas como feijão e o grão de bico; e maiores até mesmo que a carne, “não contendo colesterol e apresentando vitaminas e minerais em quantidades superiores aos dos outros alimentos deste grupo, é um alimento aconselhável para substituir a carne ou o pescado”, segundo a nutricionista Paula Veloso.

 

 
(Vídeo contendo entrevistas com ativistas veganos.)

A Importância nutricional da carne e do leite

A carne é uma fonte de proteína e a maior fonte de cinco importantes vitaminas: tiamina, niacina, riboflavina, vitaminas B6 e B12. Além disso contribui com minerais, principalmente o ferro e o zinco.

O leite é uma mistura de gorduras, proteínas, carboidratos, sais minerais e água.

O SIC (serviço de informações da carne) reconhece que só a vitamina B12 e a B2 (encontrada na soja e em alguns tipos de castanhas) não estão presentes em outros alimentos em quantidades apreciáveis.

“Dentre as vitaminas, destacam-se a vitamina B12 (ou cobalamina), a niacina e a riboflavina (ou vitamina B2); entre os minerais, o ferro e o zinco. As demais vitaminas e minerais não serão tratadas neste texto por apresentarem-se em menor concentração e estarem presentes nos demais alimentos em quantidades apreciáveis”. http://www.sic.org.br/

Além da dieta

Fora a dieta, o veganismo rejeita produtos de seu cotidiano que sejam feitos a partir da exploração animal. As relações mais óbvias são com produtos como o couro e a lã, que são produzidos a partir de partes dos animais. Todavia há produtos proibidos, cuja exploração animal  não é tão explícita assim, é o caso dos que são testados em animais durante sua fase de desenvolvimento. Para o ativista e tatuador João Pedro, essa é a maior dificuldade de ser vegano, pois o boicote desses produtos depende da divulgação de listas que informem as empresas que realizam ou não os testes.

Veja uma lista de produtos não testados em animais, divulgada pelo “PEA” (Projeto Esperança Animal): http://www.pea.org.br/crueldade/testes/lista.htm

Produtos proibidos para veganos

Vestuário: Pérola, seda, camurça, lã, pluma, pena, pêlo, osso, couro e etc.

Medicamentos, suplementos e vitaminas: Não tomam vacinas ou soros, mas podem violar os princípios veganos quando não tiverem mais alternativas, ou em caso de extrema urgência. Alguns optam pela fitoterapia, homeopatia ou qualquer tratamento alternativo.

Alimentação: Qualquer produto de origem animal.

Entretenimento: Circos, rodeios, touradas e jardins zoológicos. Não caçam, não pescam e não praticam ou acompanham qualquer esporte que envolva animais não-humanos. Seguem o princípio da não-violência.

Produtos higiênicos: Shampoos, condicionadores, creme dental, fio dental, escova de dente, sabonete, desodorante, fralda, absorvente e etc. Todos esses produtos, sem exceção, têm marcas específicas para que os veganos possam consumir (as que não realizam testes em animais).

Cosméticos e derivados: Protetor solar e labial, tintas para cabelo, hidratante, perfumes, maquiagem, esmalte, produtos de depilação, loção pós barba e etc. Todos esses produtos, sem exceção, têm marcas específicas para que os veganos possam consumir.

Um pouco sobre a indústria dos alimentos de origem animal

Alexandre Bazzan - estudante de jornalismo e zootecnista não atuante

Alexandre Bazzan, estudante de jornalismo e zootecnista não-atuante descreveu alguns processos de criação animal para a indústria alimentícia. A zootecnia consiste exatamente em desenvolver alguns métodos para potencializar a produção de alimentos e outros bens que têm os animais como principal fonte de matéria-prima.

Na criação animal é importante poupar energia. Na criação de frangos de corte, por exemplo, um dos métodos usados é não deixar muito espaço para o animal andar. Quanto mais o animal anda mais ele perde energia e demora mais para atingir o peso de corte. Outro método é deixar a luz do aviário acesa por mais tempo do que a duração normal da luz dia, para que os animais comam mais e engordem mais rápido.

Acredito que uma vaca produtiva viva em torno de cinco anos, mas se ela vivesse solta ela provavelmente viveria mais de15 anos (o que não aconteceria no ambiente natural dela, sem a proteção contra predadores]). Quando a produção dela cai muito, o normal é que ela seja abatida, já que uma vaca ocupa espaço e come bastante, existem custos que gerariam um prejuízo caso essa vaca fosse mantida na fazenda.

A vaca leiteira está constantemente prenha. Entre uma prenhez e outra vai cerca de 2 meses em uma vaca de boa genética.

O que se almeja é uma maior produção, para que consequentemente se possa alimentar uma maior quantidade de seres humanos.

Bazzan explicou também que o abate dos animais é feito da forma menos estressante possível, para que a carne se mantenha melhor e mais macia, o qu melhora a produção e valoriza o produto. Existem muitos vídeos sensacionalistas que mostram o abate torturante de animais, mas é importante salientar que existem leis que regulam a prática. (http://sileg.sga.df.gov.br/legislacao/distrital/leisordi/LeiOrd1997/lei_ord_1567_97.html)

Conscientização Vegan

A partir de recentes pesquisas realizadas entre 2009 e 2010, ONGs como a “Consciência Veg” constataram que o número de veganos e vegetarianos têm crescido, pelo menos na cidade de São Paulo, como conta um dos coordenadores das pesquisas Cristian Sabóia:

“O número de vegetarianos varia entre 3,5% e 4%, e dentro dessa porcentagem o número de veganos é de aproximadamente 25%, o que corresponde a aproximadamente 0,75% da população.”

“Já o número de pessoas que têm uma dieta simpática ao vegetarianismo varia entre 6% e 7%. Eu digo varia porque a gente ainda não tem uma amostragem grande o suficiente para diminuir a margem.”

“E de acordo com pesquisas mais recentes pudemos constatar que tanto o número de veganos, quanto o número de vegetarianos consumidores de ovos e leite, tiveram um leve aumento. Até por ações como o projeto “Segunda-Feira sem carne”, que é um projeto mundial e possibilita um contato com o vegetarianismo, mesmo que parcial”

Em São Paulo existem outros movimentos que têm como finalidade divulgar informações sobre o veganismo/vegetarianismo e “conscientizar” as pessoas.

Um desses projetos é a “Verdurada”, que acontece bimestralmente desde 1996, porém o movimento encontra-se estagnado, sendo que a última vez que ocorreu foi em agosto desse ano e ainda não há previsões de datas para a próxima realização.

Organizado pelo Coletivo Verdurada, o evento é bem amplo e conta com shows de bandas independentes (quase sempre de Hardcore), exposições de vídeos, debates e palestras que abordam assuntos de cunho social, político e artístico e ao final de todo evento é servido um jantar totalmente vegetariano.

Outro projeto é o DIDA (Dia Internacional dos Direitos Animais), que acontece todo dia 10 de dezembro desde 1998, quando foi criado pela ONG inglesa UNCAGED. A data é uma alusão à ratificação na ONU da Declaração Universal dos Direitos Humanos e tem como finalidade chamar a atenção para a necessidade de inclusão de todos os animais não humanos como seres de direitos, visto que, segundo eles, também são passíveis de sofrimento.

No Brasil o DIDA é coordenado pela ONG “Holocausto Animal” e neste ano, com a temática “Se você parar de comer, eles param de matar”, foi antecipado para o dia 5 de dezembro e acontecerá junto com a “Parada Veg”.

A “Parada Veg” é uma passeata organizada por diversas ONGs, que acontece anualmente (geralmente no final do ano) e tem como principais objetivos: divulgar o vegetarianismo como estilo de vida pacífico e ético; afirmar o direito do vegetariano de exercer sua opção de consciência de forma plena e cidadã; fomentar o desenvolvimento de produtos e serviços para vegetarianos, tanto pelo setor público quanto pelo setor privado e pelo terceiro setor.

Links úteis:

– Links de portais sobre a causa vegana:
http://www.veganos.org/

– Restaurantes veganos no Brasil:
http://www.guiavegano.com.br/vegan/destaques-de-cidades/restaurantes-vegetarianos

 – Produtos veganos:
http://www.guiavegano.com.br/produtos/cosmeticos/index.html

– Calendário de atividades veganas:
http://www.guiavegano.com.br/vegan/comunidade-vegana/eventos/15?view=calendar

– Verdurada:
http://www.verdurada.org

– ONGs:
http://www.conscienciaveg.org.br
http://www.holocaustoanimal.org
http://www.ativeg.org

Documentários:

 Meet your Meat (“Conheça sua Carne“), Earthlings (“Terráqueos“), Chew on This (“Pense Nisso“), Super Size Me (“A dieta do palhaço”) e o pioneiro brasileiro A Carne é Fraca, seguido de Não Matarás.