Ter dúvidas, hoje, só para a elite

Posted on 03/12/2010 por

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Todos os jovens brasileiros têm que tomar uma decisão importantíssima por volta dos seus dezoito anos, que vai mudar a sua vida; qual faculdade fazer? Qual curso escolher? E se não der certo?

Bom, sabemos que a cabeça do jovem realmente é um aglomerado de dúvidas, e quem não está passando por isso já passou ou ainda

Sala de aula de cursinho, São Paulo - Reprodução

vai passar. Mas essa pressão de vestibular, estudos, faculdade e “o que eu vou querer fazer para o resto da minha vida” mexe muito com a cabeça de qualquer um.

É claro que, quando se usa “todos os jovens”, existe certa ingenuidade. O Brasil, hoje, tem 2,4 milhões de jovens analfabetos, segundo o Pnad (Pesquisa nacional por amostra de domicílio), isto é, tem muito adolescente que não frequenta escola ou, se frequenta, não tem uma base mínima de educação.

Isso faz com que vejamos a realidade do ensino brasileiro. Não há preparo para um garoto pobre de periferia prestar um vestibular de qualidade. A USP, Universidade de São Paulo, que é pública, tem uns dos vestibulares mais difíceis da América, sendo necessário, para alguns cursos, anos de cursinho.

Levanta-se então a seguinte questão? Para quem são feitas essas provas, esses vestibulares? Infelizmente, apenas para quem tem dinheiro. E esse é um problema recorrente no Brasil, que se tardar a resolver, poderá se tornar irreversível.

Portanto, resta-nos uma mínima parcela da população, uma elite de jovens brasileiros que poderão conseguir vagas numa boa universidade e garantir um diploma reconhecido.

Vamos pegar o censo do IBGE, que mediu jovens que habitam em domicílios particulares que frequentam ou frequentavam a escola. Com esses dados, podemos ter uma breve margem de quantos adolescentes de 18 a 19 anos teriam acesso a um estudo de qualidade que tecnicamente lhe daria acesso a uma universidade: jovens de família entre 3 e 5 salários mínimo, 468.540 mil. Jovens de família acima de 5 salários mínimo (estima-se acima de 2.500 reais por mês), 464.266 mil.

Tem-se então, estatisticamente, claro, por volta de 500 mil jovens com acesso à universidade, sendo que um a cada dois jovens, de 18 a 19 anos, estava fora do nível de ensino adequado e de 18 a 24 anos, 52% dos universitários não estavam no nível de ensino adequado á sua faixa etária. Por fim, desses 500 mil jovens que hipoteticamente teriam acesso à universidade, apenas 127.521 mil jovens concluem o ensino superior, segundo o IBGE.

Toda essa contextualização é necessária para que se possa traçar, além do cenário educacional brasileiro, o perfil do jovem vestibulando brasileiro. Vimos então que, apenas 500 mil, ou seja, 0,2% da população brasileira têm acesso ao ensino superior sendo que nem 0,1% se formam.

Feito isso, podemos partir para o sistema de escolha das universidades brasileiras, por meio do vestibular. Cada universidade e faculdade tem a sua prova, no seu estilo, como desejar a instituição, seja ela pública ou privada. Tem-se também o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), uma prova que surgiu nos anos 90 para se medir a capacidade dos alunos do ensino médio brasileiro.

O ENEM, nos últimos dois anos, vem servindo como um vestibular geral para a maioria das faculdades federais do Brasil. Em síntese, é uma prova de conhecimentos gerais, de um nível médio, com uma aplicação de conhecimentos para o dia a dia.

O grande problema do ENEM é o nivelamento por baixo que o governo faz dos jovens estudantes. Já que não conseguem dar uma boa escolaridade para eles enquanto crianças, nas escolas públicas, decrescem o nível do vestibular, transformando-o no ENEM, para que se tenha um maior acesso às universidades.

Isso é ótimo, realmente muito bom. É obrigação do governo colocar esses jovens na faculdade, mas deve-se também planejar a educação desde a infância de um indivíduo. Não adianta ele ter uma formação incompleta e entrar no ensino superior de uma federal. Essa pessoa não aproveitará quase nada, enquanto a faculdade não conseguirá fazê-la produzir como desejado.

Outro ponto importante do ENEM é que existem muitas vagas por todo o país, e vagas concorridas – direito, medicina, jornalismo, engenharia –, o problema é que essa vaga de medicina é muito longe de alguns candidatos. Por exemplo, sobram vagas de medicina na Federal do Acre. É extremamente difícil um candidato residente do Rio Grande Sul, Minas Gerais, São Paulo se deslocar para ir morar em outro estado.

Por outro lado, esse preenchimento de vagas longínquas serve como um incentivo para o governo melhorar o ensino por todo o país.

Segunda fase da Fuvest - Reprodução

Agora nos direcionamos à elite da elite. Aquele que pode pagar o seu curso numa boa universidade privada, ou tem condições de passar no vestibular de uma universidade pública como a USP, UNESP.

Deve-se separar uma vez mais esses candidatos, mas agora não de um modo de quem pode mais ou de quem tem mais, e sim de uma maneira pessoal, do que cada jovem quer para si mesmo.

Uma preparação para um curso de Medicina ou Direito na USP é extremamente complicada. Existem jovens que ficam três anos fazendo cursinho para conquistar uma vaga. E algumas vezes acabam até desistindo, tamanha é a dificuldade da prova.

Entretanto, para isso, o estudante deve mudar a sua vida, a sua relação com os amigos, com a família, suas perspectivas pessoais, tudo para se dedicar integralmente aos estudos. Agora, porque tamanho esforço?

“Eu preciso dessa vaga. Medicina é a minha vida, e eu já sei disso mesmo sem ter começado ou sequer passado no vestibular. A minha ânsia por começar o curso é gigante. Eu me imagino no campus da USP, com aquela tinta na testa formando a palavra medicina.”, confessa Flávio Hungterm, 22 anos, e estudante do cursinho Anglo. “Eu me dedico 24 horas aos estudos e não me incomodo de passar a maior parte do tempo em casa. Sei que tudo isso valerá a pena. Essa, agora, é minha prioridade.”

Mas há aquela leva de alunos que opta por uma universidade particular. Hoje, no Brasil, existem pouquíssimas universidades pagas que ainda mantêm uma boa qualidade de ensino, e elas são caras. A FGV (Faculdade Getúlio Vargas) tem uns dos cursos de administração mais concorridos do país, além de um dos vestibulares mais pesados. A FAAP (Faculdade Armando Álvares Penteado) é uma das mais caras, com um vestibular abaixo da média, mas com uma qualidade de ensino muito boa. Faculdades como PUC, Mackenzie, Cásper Líbero, ESPM, têm enorme tradição e seus diplomas são muito bem aceitos no mercado de trabalho.

Sim, realmente é muita informação para a cabeça de um rapaz de 18 anos. Mas uma escolha tem que ser tomada e um sonho deve ser seguido.

Portanto, o que acontece com esse jovem, antes cheio de expectativas e sonhos, desejos e ambições, depois de se formar?

“Eu não fiquei muito satisfeita com meus anos de faculdade. Acredito que o curso deveria ter exigido mais dos alunos e no final foi tudo muito fraco. Nunca senti que eu tive que estudar de verdade, apesar de estar em um meio com tudo quanto é tipo de pessoa interessante.”, diz Nathália Sica, 26, formada em jornalismo, 2009, pela PUC-SP. “Acho que minha maior sorte foi não ter idealizado nada no começo da faculdade. Com o passar dos anos fui vendo do que gosto e me direcionei para o lado certo.”

Segundo Bernardo Tozzos, 28, formado pelo Mackenzie em 2008 no curso de Publicidade e Propaganda, “Minha mudança para o mercado de trabalho não foi realmente uma mudança, foi um intercâmbio que começou ao final do 4º semestre, por isso, mais da metade do curso foi dividido com o trabalho, onde um queria mais atenção do que o outro, onde um queria ser mais importante que o outro e realmente conseguiam me deixar em dúvida”. E completa, “Eu sonhava com o que eu conhecia. Fazer vídeos incríveis, comerciais com sacadas impressionantes, ganhar Cannes. Hoje eu vejo que o que eu queria na verdade era fazer coisas que fizessem a diferença para marcas e para as pessoas que vissem”.

Por fim, Aline Silva, de 26 anos, formada em Serviço Social pela Cásper Líbero, completa “Não fico completamente satisfeita em relação aos assuntos abordados. Acho que o que aprendemos estava muito fora da realidade do mercado de trabalho. Foi uma formação mais generalista, mais teórica do que pratica”. “Tudo era muito mais fantasiado pra mim. Quando comecei a trabalhar senti a falta de liberdade, a pressão do “patrão”. Nada foi como imaginei”.

Por fim, só pode-se dizer que tudo isso é muito relativo, já que cabe a cada um planejar e construir o seu futuro.