Dependência química constitui patologia social

Posted on 09/12/2010 por

0


    Poder Público busca solução, enquanto usuário e sociedade agonizam

O consumo de substâncias químicas que causam dependência é uma característica comum a populações de todo o mundo, inclusive a do Brasil, sendo o álcool e o tabaco as mais utilizadas, provavelmente por serem permitidas. Vários fatores (biológicos, psicológicos, ambientais e sociais) atuam simultaneamente para influenciar a tendência de qualquer pessoa vir a usar drogas e isto se deve à interação entre o agente (a droga), o sujeito (o indivíduo e a sociedade) e o meio (os contextos socioeconômico e cultural).

Cientificamente, mesmo com uma produção intelectual sobre as subs-tâncias e suas reações, ainda não foi totalmente esclarecida a complexa relação entre as drogas e o homem. O uso de drogas constitui uma esfera à parte, porém inserida na sociedade. Uma vez que torna o indivíduo dependente, o fenômeno interfere também no campo sociológico, médico, psicológico, jurídico, etimológico, psicanalítico, educacional, familiar e o religioso. E cada um desses campos procura oferecer alguma solução para resgatar o dependente e devolvê-lo à sociedade.

Mota¹ critica em seu livro as teorias sobre a etiologia da relação entre o uso de drogas e o homem: “entre os saberes psicológicos não existe uma teoria geral das dependências” (p. 29). Segundo o autor, o uso de drogas vem como o remédio para todos os males. A proposta do livro é justamente uma investigação sobre a etiologia das drogas. Ele argumenta que é necessário um tratamento interdisciplinar para a investigação desse fenômeno, que é ao mesmo tempo biológico, psicológico e social, como lócus para compreender “as questões das drogas versus o homem”.

Há também a questão entre o uso de substâncias psicoativas e a psicologia: o prazer e a angústia, de maneira a abordar os modelos psicanalítico e comportamental, a influência da família, da personalidade e do aprendizado social. Freud refere que o uso de drogas estaria ligado à luta para alcançar a felicidade e como amortecedor de preocupações. Alguns psicanalistas afirmam que o uso dessas substâncias seria um sintoma da patologia social. Para a psicanálise as forças psíquicas podem ter a mesma intensidade em todos, mas cada indivíduo sente seu sofrimento de forma distinta, portanto, a fuga para as drogas seria apenas um dos recursos entre outros disponíveis.

Isso traz uma reflexão sobre o problema das drogas e a sociedade no contexto social contemporâneo, como os fatores sociais de risco que favorecem o uso de substâncias psicoativas. O meio em que o indivíduo nasce e cresce pode ser determinante nesse processo, mas uma boa base familiar não oferece garantia contra o risco de tornar-se dependente.

Social e politicamente, o problema das drogas alimenta outras questões a ele relacionados, como por exemplo, a violência, a corrupção, a instabilidade política, o crime organizado, a lavagem de dinheiro, o favorecimento da propa-gação de AIDS e hepatites, entre outras doenças. A produção e venda de dro-gas estão entre as três atividades mais lucrativas do mundo, acima do petróleo e do mercado das armas. Apesar de haver políticas públicas de combate ao uso e comercialização, o envolvimento da própria polícia e autoridades nesse processo talvez justifique a reduzida eficiência e eficácia de explicações, consolidando como poderosa economia ilegal.

De forma geral, o processo pode ser esquematizado no gráfico abaixo. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que traz alívio, alegria, diversão, poder e sedução, a droga causa dor, sofrimento, desagregação, escraviza e mata.

Em agosto de 2006, foi promulgada a Lei nº 11343, que instituiu o Sis-tema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas – Sisnad. Segundo o texto da Constituição Federal, é proibida a produção e comercialização de drogas em qualquer lugar do Brasil que possam causar dependência. Entre os princípios que embasam a lei, o primeiro é “o respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana, especialmente quanto à sua autonomia e à sua liberdade”.

O Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas – Conad investiu mais de 14 milhões de reais em cursos de capacitação para combate ao crack. Os cursos SUPERA, Fé na Prevenção, Capacitação para Conselheiros e Lideranças Comunitárias, Atividade Judiciária e Prevenção para Educadores da Escola Pública são ministrados na modalidade à distância e têm duração de três meses, com certificação de Extensão Universitária. Os inscritos recebem o material didático em casa e têm acesso a ambiente virtual para tirar dúvidas.

Porém, mesmo com o investimento em políticas de combate ao uso, a situação no país está longe de uma melhora sensível. Um estudo publicado em 2009 apontou o Brasil como o quarto maior consumidor de drogas injetáveis no mundo e o maior mercado de cocaína da América do Sul. Na Cracolândia, região central de São Paulo, os usuários podem ser vistos a qualquer hora do dia. Sem qualquer perspectiva, seu único objetivo é sustentar o vício, o que leva à prática de assaltos e prostituição. Ainda não houve iniciativa pública para a construção de uma clínica especializada para a recuperação de viciados em crack.

Fuga sem saída
A situação reflete o conceito de patologia social proposto por Mota¹, pois um indivíduo doente é fruto de um sistema de governo deficiente e afeta todos que fazem parte de seu círculo. O mercado das drogas é forte no Brasil porque seu consumo é alto, e quem sofre as consequências reais é o dependente e sua família.

Nicolas Souza*, 28, hoje é executivo e vive em Londres, mas antes passou por experiências nada agradáveis com as drogas: “Usei cocaína, crack, LSD, cola, álcool, ecstasy, colírio nefrálgico para dilatação (pinga no nariz), heroína, benzina (ingerida), éter (aspirado) e algumas coisas que não me lembro mais. Comecei a usar por pura curiosidade e vontade de ficar mais perto da galera ‘bacana’, diz.

“Depois de uma overdose em março de 1997, mudei para o outro extremo da cidade e tinha que fazer tratamento com Diazepan duas vezes ao dia, sessões de terapia com psiquiatra por dois anos de duas a três vezes por semana (às vezes emergenciais), tremedeiras constantes diárias, reações físicas musculares diversas (repuxões dos músculos por uns dez meses), medo de tudo e pânico moderado/alto por quase dez anos. Tinha pesadelos terríveis”, conta Nicolas.

Apesar de sofrer a influência dos amigos, ele admite a culpa em ter se tornado dependente e hoje se considera recuperado: “Perdi tudo na minha vida: moral, autoconfianca, equilíbrio psicológico. Eu e minha família tivemos de mudar várias vezes por quase três anos até nos acertarmos financeiramente, tudo por minha causa. Perdi tudo o que eu tinha na época: bicicleta, CDs, roupas, videogame etc.”, diz. “O mais importante é que hoje sou uma pessoa muito segura, que sabe o que quer, que deu a volta por cima com força de vontade e a ajuda da família, que é essencial. Um pouco do meu pânico ainda existe e me afeta, mas sei lidar com isso como qualquer outro problema diário”.

Ainda sobre a experiência, a alteração do humor trouxe consequências na Justiça: “Anos depois eu tentei fumar maconha algumas vezes em ocasiões bem especiais e tive um efeito reverso, em que ao invés de ficar relaxado, fiquei super nervoso e sem controle e acabei batendo em quatro caras numa festa. Um deles foi parar no hospital com a mandíbula quebrada e respondi processo por agressão”, relata. “Mais tarde, fui ao médico tentar saber o porquê disso e ele me disse que, como consequência do uso diário de drogas fortes por anos a fio, meu cérebro e meu fígado criaram reações adversas a substâncias químicas não-comuns ao meu corpo, provocando reações totalmente inesperadas, incontroláveis e muito perigosas. O médico também disse que eu poderia até matar alguém nesse estado”.

Depois desse episódio, nunca mais provou qualquer droga ilícita e não sente falta: “Hoje estou muito bem, tomo minha cervejinha às vezes e só. Me sinto normal, mas com uma cicatriz a mais de aprendizado”.

Elisa Lopes*, 29, fez apenas uso recreativo, como a maioria dos usuá-rios na faixa dos 20 aos 30 anos: “Usei cocaína algumas vezes. Experimentei aos 18 anos na Lôca, casa noturna GLS de São Paulo, sob influência de amigos. Usei mais algumas vezes ao longo desses dez anos, mas nunca cheguei a viciar”, conta. “Usei a primeira vez pela curiosidade e nas demais vezes porque achei bom e para aproveitar mais a noite. A outra questão é que tira muito o sono e, como não tinha carona, teria que ficar a noite toda acordada esperando o transporte público”.

Elisa não sofreu consequências mais graves, mas não pretende usar mais: “Os problemas que tive com o uso foram paranoia de pelo menos três dias após o uso, taquicardia e culpa. Não recomendo para ninguém”.

¹ MOTA, L. A. Dependência Química: Problema Biológico, Psicológico ou Social? São Paulo: Paulus; 2007. 84 pp.
http://www.obid.senad.gov.br
*nomes fictícios a pedido dos entrevistados.

Depoimento de William Ladessa, jovem não usuário, sobre drogas e seus efeitos.

 

Grupo: Marília de Lucca, Mariana Pedro, Antônio.